22 Novembro 2011

19 Setembro 2011

"Hamlet - Máquina" - por Ondina Clais.


“Um pouco de possível senão eu sufoco” Gilles Deleuze
                   
A devastação de um reino, a queda e a usurpação do poder são temas recorrentes nas tragédias. A Alemanha de Heiner Müller, no entanto, foi o ventre de um dos embates mais duros da História, um ventre escuro, um ventre mórbido. Se o ventre deveria ser uma via de mão dupla como pede Hamlet, em Hamlet - machine, o fruto por uma lei da Natureza, não poderia vingar. Nenhuma mãe pode dar a luz ao neto, assim como nos preconiza Sófocles com sua Jocasta e como "nossa" Senhorinha, em “Álbum de Família”, não pode ter um filho de Nono. Este com o nome contendo dupla negação No-No, uma daquelas genialidades do nosso dramaturgo trágico Nelson Rodrigues.
                Para além da usurpação do poder na Alemanha Nazista e a divisão das Alemanhas com a morte de Stalin, se acelera na Europa mais um processo de queda. A queda! Hamlet o dandy, o romântico, a voz de trovão da tempestade e ímpeto (sturm und drung), acusa a mãe-Europa de assassina, e os fantasmas dos mortos assolam os reinos usurpados. A urgência do feminino, dos ventres fecundos, das Ofélias salvas nos leitos dos rios. “O movimento tem que vir das províncias, e a mulher é a província dos homens". Essa frase que pode soar machista e panfletária, na verdade é só um grito de Lenin, dizendo não destruam Gaya! O feminino é o ventre que gera. Se Hamlet vem nos dizer que - citando o próprio autor - “no plano dos homens nada mais anda, então as mulheres tem que pensar em algo". A voz feminina, a anima, o fundo da terra molhado...
                Heiner Müller é cuspido da RDA (República Democrática Alemã), como um resto de carne podre que sobra entre os caninos de uma besta. Sai da “sua terra” e migra como milhares de outros, buscando um ventre fecundo, um pouco de possível. Ele pressente como os pássaros, como os elefantes o tremor, as ruínas.
                O luto da EUROPA, da Alemanha pós-nazismo provocou êxodos incríveis. Muitos judeus e não judeus procuraram novos horizontes, enquanto os que ficaram gestaram pensamentos, tratados, filosofia e arte da melhor qualidade também na busca da linha fuga.
                Quando me deparo com uma montagem de Hamlet - machine, como peça de formatura de um sexto termo como esse, fico extasiada, não só porque foi a minha "primeira turma de primeiro termo no Célia Helena", mas pela escolha de uma peça impossível, e o impossível me atrai. O impossível é matéria dos artistas. Não é a primeira vez que esses alunos escolhem algo assim. No semestre anterior escolheram textos de Brecht e conseguiram produzir uma montagem a altura do texto, com a direção precisa de Simoni Boer e onde despontava o trabalho de voz de Nydia Licia, que acompanhou essa turma desde o terceiro termo com a maestria que todos conhecem. Tive a graça de acompanhar esse processo de perto em uma de suas aulas que assisti junto com essa turma sobre o texto de Antígone, nunca me sai da medula.
                Tenho muito a dizer sobre a montagem, por isso quero me sentar no sábado com o grupo bem antes da peça, lá no teatro e em roda falar um pouco da trajetória de cada um e do grupo. Posso dizer talvez como sugestão de mise en scène, que explorem mais as quedas, utilizem mais as filas e os deslocamentos militares, e para isso poderiam se munir ou rever os filmes de Leni Riefenstahl e o Mahabharata, de Peter Brook, com Yoshi Oida, em busca de novas "coreografias" para as cenas. Senti falta das linhas verticais, das alas se deslocando no espaço e no chão, e das quedas, principalmente no corpo dos homens. A queda da pilastra, do homem, da vertical é fundamental nesta obra e não pode estar representada só pela horizontalidade de um caixão, que é muito bem vindo à cena, mas não basta.
                Entendo, no entanto que seis meses de pesquisa é pouco para conhecer uma turma, eleger a obra e montá-la. Então a obra sempre será um ''work in progress”, mas aproveito para parabenizar o diretor Marcelo Lazzaratto por este feito e dizer que só a escolha deste texto já condiz com a sensibilidade do diretor-pedagogo, a escolha do viés performático mostra que ele  sentiu exatamente o que, acredito, que a turma precisava com um misto de  urgência,  desejo e necessidade de cruzar outras fronteiras. Não é exatamente essa a proposta de Heiner Müller em Hamlet - machine?
                Aqui neste texto que escrevo quero dizer a todos que assisti ao espetáculo, não como mãe e muito menos como professora. Assisti a "uma peça", deixei os signos, os símbolos, as imagens e os sons me invadirem e me conduzirem. O grupo existia e a energia  de um coletivo forte me fez ser conduzida, e vocês me levaram longe, fundo, bem perto do que chamo de útero, de útero do Universo um lugar silencioso e Vazio- Sunyata! De onde tudo pode nascer!
Parabenizo e agradeço a todos que tornaram isso possível. E todos significam bem mais do que imaginamos...

Um grande abraço
Ondina Clais.


13 Setembro 2011

O Casamento Suspeitoso.

Estúdio em cena / Núcleo Odisséia!


O Estúdio da Cena é um grupo de montagem que tem como um dos principais objetivos o de investigar as linguagens da cena contemporânea, com ênfase no teatro enquanto arte. Tem a condução do diretor Marco Antônio Rodrigues e do dramaturgo Samir Yazbek, ambos professores da ESCH – Escola Superior de Artes Célia Helena e do Célia Helena Teatro-escola.
O projeto inicial desse grupo de estudos parte da Odisseia e do mito do regresso de Ulisses à sua terra natal, depois de anos lutando na guerra de Tróia. Envolve intensa pesquisa, leituras diversas, reflexão coletiva e sucessivas improvisações a respeito desse tema e de sua contemporaneidade.
O Estúdio é composto de alunos e ex-alunos das escolas Célia Helena, tanto da faculdade quanto do curso técnico.

                                                                        Por Sônia de Azevedo - Coordenadora da ESCH.